Arthur Maia
- 22 de out. de 2016
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“O Armando (Garcia) selecionou três pessoas: a Vera – Vera Moraes – a Cléa e eu”, afirmou Arthur Maia sobre as escolhas do amigo que reencontrou no Retiro dos Artistas depois de mais de 50 anos. “Nós fizemos O Chapéu de Seda”, relembrou o ator que conquistou o papel principal na peça.
Frequentador de teatro desde os quatro anos de idade, Arthur atribui a sua vocação para a arte à sua mãe, que o acompanhava em todas as suas idas. Prestigiou Araci Cortes, aos sete anos de idade viu a estreia de Bibi Ferreira, a Companhia do Procópio e viveu o auge do teatro da década de 30 quando ainda era criança.
Apesar da paixão pelo teatro e cinema, Arthur Maia seguiu o ramo da arquitetura, parando no quarto ano do curso. O seu início nos palcos começou na Faculdade Nacional de Arquitetura: “Havia na época um grande grupo de teatro na cidade de São Paulo, o teatro de Arena São Paulo. Então Boal (Augusto Boal), o… o… o… Vianinha, o… ah! aquele, meu Deus, que escreveu Eles não Usam Blacktie, o… bom, agora não me lembro o nome”, referindo-se, possivelmente, a Gianfrancesco Guarnieri.
“Desse grupo, veio Chico de Assis para dirigir uma peça do Vianinha, que é o Oduvaldo Vianna Filho, A Mais-Valia Vai acabar”, contou. “Como eu fazia arquitetura, eu me interessei em assistir um ensaio para saber como seria a parte de cenografia”. Arthur, contudo, não contava com a falta de um ator da peça durante o ensaio e que, por isso, o chamariam para ler o texto. Brincando, ele conquistou dois papéis: o do velhinho e um dos personagens principais, o palhaço. “Foi nessa brincadeira que me embarquei para o teatro!”, disse.
Largou a faculdade e, como resposta da sua atitude, começou a fazer peças como Ionesco e Chico Pereira da Silva, além de peças infantis. Começou a trabalhar com os cenários logo em seguida, transformando uma floresta em um barco no Teatro Procópio. Escreveu, produziu, dirigiu e fez o personagem principal da sua peça Dona Patinha vai ser miss, que ficou 13 meses em cartaz de forma ininterrupta no Teatro de Bolso. O espetáculo saiu de cartaz porque Arthur queria escrever e montar a sua segunda peça, A Copa da Canópia.
No cinema, além de trabalhos como ator, fez o cenário e os figurinos de, aproximadamente, oito filmes. Esteve ao lado de Reginaldo Farias, em Quem tem medo do Lobisomem, de Stepan Nercessian, Jorge Dória, Sandra Barsotti, “que era a estrelinha da época”, Marcos Paulo, Darlene Glória, Paulo Porto e Rose di Primo, “a modelo mais famosa da época”. Fez o figurino e cenário de As Melindrosas, Bonitinha, mas Ordinária, O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, entre outros. Depois dos palcos e das telas, Arthur Maia fez mais de 100 comerciais.
Com o fechamento das cinco produtoras em que ele trabalhava no Rio de Janeiro, Arthur começou a fazer luminárias. Desenhou e produziu cerca de 25 modelos em art deco, inspiradas nas que ele havia trazido de Nova York. Continuou trabalhando com a arte no próprio retiro, inclusive, a casa dele é uma das mais visadas devido aos detalhes na decoração.
Ao se aposentar, ele morou durante 10 anos em Araruama, buscando ter um bom padrão de vida de acordo com a aposentadoria que recebia, o que não seria permitido se permanecesse no Rio de Janeiro. Sua decisão mudou em 2009, quando decidiu ir para o Retiro. “Não sei se você conhece uma peça do Tennesse Williams, O Bonde Chamado Desejo? A última fala, quando ela vai para o manicômio, diz assim: ‘eu sempre dependi da caridade de pessoas estranhas’. É a última fala dela que é lindíssima. Então eu só não quero ficar dependendo da caridade de pessoas estranhas, eu vou lá para o Retiro”, explicou.
O senhor de 79 anos não teve irmãos, não casou e não teve filhos, além de permanecer a vida toda distante de seus familiares. “Eu vivi sozinho, sem parentes e sem nada!”.
Atualmente, o ator encontra-se com a saúde debilitada devido ao câncer no esôfago que o deixou durante 11 horas em uma mesa de cirurgia. O pós-operatório será tratado com a radioterapia. Ora a falta de instrumentos, ora aparelhos quebrados, torna o procedimento mais extenso e complicado. “A cada dia eu me sinto pior”, declarou.
“Eu não tenho plano [de saúde]. O plano que eu tenho se chama ‘Divina Providencia’, ou pode chamar de SUS que ele atende”, tratou com graça a difícil situação que enfrenta. O tratamento era feito no Hospital Geral do Bom Sucesso, mas como no local não fazem a radioterapia, ele precisou mudar para o Hospital Pedro Ernesto.
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“Aqui é o fim da vida. Veio pra cá não tem outro jeito, só a morte…”, disse Vitória Régia.
Arthur Maia veio a falecer na madrugada do dia 12 de fevereiro de 2015, depois de um período internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), da Barra da Tijuca. Cheguei ao Retiro dos Artistas com sete livretos para entregar aos entrevistados, mas infelizmente voltei com um, e refiz aquele caminho que passava pelo Cemitério do Pechincha, onde ele estava sendo sepultado.
“Hoje é um dia triste, minha filha!”, desabafou o Palhaço Cocada.

Arthur Maia, Rio de Janeiro / 2014 - FOTO: Nathalia de Moura
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