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Waldir da Cunha

  • 8 de out. de 2016
  • 3 min de leitura

“Ele é um irmão, minha filha!”, introduziu Helena de Lima para a minha conversa com Waldir da Cunha, que trabalhou durante 44 anos como contrarregra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Eu sempre vivi o amanhã, então assim que eu entrei no Theatro Municipal logo me inscrevi aqui. Ficava pensando: ‘quando chegar na mocidade – que eu estou – se precisar vir pra cá, eu venho, se não precisar, eu ajudei alguém”, confessou Waldir, sócio há 61 anos do Retiro dos Artistas.


Waldir começou a sua carreira como ajudante de contrarregra, mas “em todo lugar é assim, né: a gente entra pra trabalhar numa posição e vão observando a gente”. Pouco tempo depois, , contra a vontade de seu pai, foi indicado para trabalhar na escola de dança. A lembrança daquele tempo está guardada até hoje através de um livro que ganhou com dedicatórias de todas as bailarinas. Vaidoso pelo trabalho que exerceu, ele relembra os momentos que passou nos corredores da escola, o carinho que recebia das alunas e diretores, e dos conselhos que sente tanta falta de dar. “No dia que o senhor não vem aqui, essa escola tá morta”, relembra, orgulhoso, a frase que as meninas sempre diziam.


Pai de uma menina, Waldir tem três netos. Mesmo gostando de sua ex-mulher, o casal decidiu pelo divorciou depois de mais de uma década juntos. “Quando não dá bem a melhor coisa é separar para cada um arrumar outra companhia e viver feliz. O importante é viver feliz. Por que vou viver com uma pessoa que sou casado se ambos não estão se dando bem? Não acho certo uma pessoa viver assim”, desabafou com a voz embargada e o semblante carregado de nostalgia.


A ex-mulher era também sua vizinha e, por isso, sabia com o que o jovem Waldir trabalhava na época. “Mas depois que casa, esquece”, afirmou. “Era difícil porque quem trabalha em teatro é que nem artista, nunca para em casa”, declarou em pausas largas, cabeça baixa e dedos que se mexiam e entrelaçavam na busca de amenizar a emoção que o assunto gerou. A filha do casal estava com 18 anos quando a decisão foi tomada: “eu sou contra o homem que arruma o filho e abandona”. A casa que o pai ajudou a pagar, o ex-contrarregra deixou para ela, “porque filha é um pedaço da gente e a gente não deve abandonar”.


Depois da separação, a mulher arrumou outro companheiro. Waldir também se relacionou com outra pessoa, mas preferiu não dar continuidade ao romance pela grande diferença de idade entre eles. “A gente sente falta da família, mas não foi minha família que me pôs aqui, fui eu que vim pra cá”, justificou o senhor após relatar que “o ruim é que depois que a gente chega aqui a família esquece muito, os amigos não telefonam, mas aqui não falta nada para nós, aqui é o paraíso”.


“A maior felicidade da pessoa é saber envelhecer”, disse Waldir, que conheceu Helena assim que entrou no retiro, em 9 de dezembro de 2013. “Porque todo mundo sabe que esse mundo não é nosso, daqui a pouco a gente sobe e a gente tem que fazer por onde”, continuou. Sobre a solidão e o tempo: “A velhice não dói, o que dói é a discriminação, a gente fazer sinal para o ônibus e ele passar por fora”. Helena concordou com a fala do velho amigo, que acrescentou, “Jovens acham que nunca vão ficar assim, mas a hora deles vai chegar. Eu acredito muito que a gente colhe o que planta”.


“Feliz àqueles que sabem que a vida é assim”.


Com câncer de próstata há cinco anos, aos 88 anos de idade ele está convicto de sua melhora e procura não questionar sobre a doença: “Se eu estou com isso é porque Deus achou que eu tinha que ter. Quem sou eu pra achar o contrário?”. No dia da entrevista, faziam algumas semanas que a vizinha Helena havia ficado três dias com febre, e mesmo sendo muito bem recebido no local, Waldir afirma: “se eu não for avisar no laboratório, ninguém fica sabendo”.

Waldir da Cunha, Rio de Janeiro / 2014 - FOTO: Nathalia de Moura

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