top of page

Altair Farias

  • 29 de out. de 2016
  • 5 min de leitura

Altair Farias, Rio de Janeiro / 2014 - FOTO: Nathalia de Moura

“O senhor tira uma foto comigo?”, perguntei depois da entrevista. “Claro, você quer tirar uma selfie?”, disse, entre gargalhadas, o velho palhaço. “Vamos pedir para aquele senhor?”, apontei para um homem aparentemente com 75 anos, que estava encostado na varanda com a sua muleta. “Ih, minha filha, aquele ali está muito velho!”, disse Altair Farias, que saiu correndo na minha frente atrás de um candidato a fotógrafo.


O Palhaço Cocada tem 95 anos de idade e reside há 16 no Retiro dos Artistas. “O palhaço é o ator. Por que é o ator? Porque é o único que fala. Os demais, não discrimina não, mas com exceção do palhaço eles entram mudos e saem calados. Mas fazem o espetáculo”, declarou o ator, palhaço, dançarino e cantor que havia acabado de sair do banho e permaneceu em pé durante uma hora de conversa. O nome artístico Cocada surgiu quando ainda era criança e foi ao circo localizado em Vila Isabel, bairro da Zona Norte carioca. “É aquele negócio: eu era feliz e não sabia!”, desabafou enquanto contava como entrou para o mundo das artes.


Altair foi ao circo de Clotilde Dórbi com o amigo Paulinho, vizinho da vila onde eles moravam. Como já havia gastando todo o dinheiro que tinham e não possuíam 500 réis para a meia-entrada do espetáculo, eles resolveram passar por debaixo da lona. O vigia, no entanto, encontrou os dois amigos no flagra, e como eles não podiam sair pela porta da frente pois já estava fechada para começar as apresentações, foram retirados do espetáculo pelos fundos. No local onde eles saíram ficavam as barracas das famílias circenses, e foi ali que foram vistos pela dona do circo, que perguntou ao vigia: “‘Ô Sebastião, onde é que você vai com essas crianças?’”. Com a voz grossa, ele respondeu: “‘Ô, não sabe não é? Eles passaram por debaixo da lona!’, ele era filho de africano”, lembrou o palhaço que permanecia com os olhos distantes, como se estivesse vivenciando de novo o momento contado.


Dórbi dispensou seu empregado e em uma conversa com as duas crianças, propôs aos meninos a venda de doces na porta do circo antes do espetáculo. “‘Chega às 19h00 porque quero experimentar o guarda-pó em vocês, o gorrinho, vou dar uma bandejinha com os doces e vocês vendem a 200 réis. É 1 tostão pra você, 1 tostão pra mim’”, explicou Altair como havia se dado a negociação do primeiro trabalho dele como vendedor de cocada.


Em uma noite de sábado para domingo, Benjamin de Oliveira, diretor artístico do companhia de circo, pediu para a diretora arrumar muitas crianças para fazer parte do elenco do seu próximo trabalho, a comédia Família Encrencada, que misturava circo e teatro. Assim que eles acabaram de vender os doces, foram entregues ao diretor. “Quando foi o fim do espetáculo, ele disse assim para a Clotilde: ‘oh, tem três garotos ai que leva jeito. Segura eles ai’. Era eu, tinha um de São Paulo, o Osmar, que estava residindo aqui, e o Otávio”, contou em meio a risadas. O seu primeiro trabalho nos palcos aconteceu nessa época, mas como o circo se desloca para vários lugares, ele não pode continuar devido aos estudos. “Não pude viajar porque era criança, mas o relógio não para”, disse Cocada, que foi criado pelo pai após a morte de sua mãe quando ele tinha nove anos de idade.


Aos 16 anos, o mesmo circo retornou ao Rio de Janeiro e então, com mais disponibilidade, pôde viajar junto: “Eu não escolhi essa profissão, aconteceu”. Um dos trabalhos que realizou foi um espetáculo sacro anual que contava a história de Jesus Cristo, momento em que ele descobriu o dom para a música. Ele ficou com o papel do Caifás, aquele que discute com Pilatos sobre a condenação de Jesus à morte na cruz. Sobre o personagem, ele afirmou: “Não é bom, não é gostoso não, mas é um trabalho. Tá ganhando, tem que fazer o personagem”.


“Bom é quando o Pilatos olha pro Cristo e diz: ‘Quero salvá- lo, não deixam’, então ele vai na pia, põem a toalha no cabide e lava as mãos”, contou toda a história encenando. “Povo mal! Ficaram do lado do Caifás… Na peça, claro”, comentou o fim que vinha seguido da música que ele puxava.


MORTE AO VIL AVENTUREIRO

MORTE AO FALSO REDENTOR

QUE PILATOS JUSTICEIRO

MANDE A CRUZ ESSE IMPOSTOR

QUE PILATOS JUSTICEIRO

MANDE A CRUZ ESSE IMPOSTOR


“Agora não quero mais trabalhar. Ainda dá caldo, mas não quero mais não por causa da idade, fico muito cansado, não vale a pena”, disse com a voz não mais tão imposta como quando recordava de sua melhor época: “O auge da carreira foi a procura, todo mundo me procurando. Eu era novo, era bom”, afirmou.


“Hoje eu atendo todo mundo com sorriso, mas o material humano, ele se sacrifica muito, entendeu? Não dá, não tem ninguém, ainda mais nesse trabalho, porque cada trabalho tem uma característica. (…) O nosso caso é movimento, é força, é cabeça, é tudo na ponta da língua, você não pode errar, se errou acabou”, falou Altair, que logo comparou os palcos com a televisão, especificamente com uma novela que realizou há cerca de 50 anos. “O diretor, Ademar Gonzaga, voltou com uma cena – uma cena banal – 19 vezes. Era ‘Dá licença? Eu estou chegando’, não era um bife. Nunca mais esqueci isso”, lembrou o artista. O bife, que é uma fala grande de um personagem em uma cena, foi o início de uma série de explicações sobre o meio artístico.


“Eu sempre pensei em fazer o melhor e fiz. Eu era muito cobiçado no trabalho”, se orgulhou o palhaço Cocada. “O trabalho mais importante foi a peça O maluco do segundo andar, quando eu tinha 20 anos. Eu fiz o maluco. Ih, fui falado pra caramba!”. Ele interpretou as cenas, contou toda a história e falou todas as falas.


Fomos interrompidos por uma excursão no Retiro dos Artistas, comandada pelo coordenador Hênio. O Palhaço recebeu aplausos quando todos souberam de sua idade.


“RESPEITÁVEL PÚBLICO, BOM DIA!”, ELE GRITAVA, ABRINDO OS BRAÇOS E SE CURVANDO.

“BOM DIA!”, TODOS GRITAVAM EUFÓRICOS EM MEIO A RISADAS.

“HOJE TEM GOIABADA?”

“TEM SIM SENHOR!”, TODOS SACARAM SUAS CÂMERAS FOTOGRÁFICAS E DIRECIONARAM PARA ELE.

“HOJE TEM MARMELADA?”

“TEM SIM SENHOR!”

“E O PALHAÇO O QUE É?”

“É LADRÃO DE MULHER!”

Altair Farias, Rio de Janeiro / 2014 - FOTO: Nathalia de Moura


Risadas, gritos, brincadeiras, conversas, fotos, abraços, apertos de mãos e tiradas circenses, a visita terminou com aplausos para mim. Mesmo cansado, é nítido perceber o prazer que ele sente de interagir com o público e o amor pelo teatro e o circo. “Eu podia brilhar mais, ter mais sucesso se fosse hoje, porque toda profissão cresceu, cresceu por causa do progresso. Não tinha o que tem hoje”, lamentou o palhaço.


Altair Farias chegou ao Retiro dos Artistas porque investiu, pagando todos os recibos necessários, o sindicato, apresentando os documentos, lista de trabalhos e procurando o que tinha de direito. “Eu dou dois mil por mês, sou artista, mas tenho uma boa aposentadoria”, completou. Sua conquista ocorreu mesmo com a família contra. “Família quer ficar agarrada… Também depende né, tem família que nem liga, outros amam”, explicou o palhaço que casou, teve dois filhos, mas foi infeliz.


A sua mulher morreu de câncer quando Elizabeth, sua primeira filha, estava com quatro anos. Hoje ela mora em Bangu e é viúva, perdeu o marido para a diabetes. O segundo filho, que ele não lembra o nome, morreu depois de sete dias que havia nascido devido a doença da mãe. Ela chegou a operar, mas sem sucesso. “Nem gosto de falar porque é triste”, em uma fala engasgada, com os olhos cheios d’água. “Foi pedreira!”.

Comentários


© 2017 by Contações de Memórias. Proudly created with Wix.com

bottom of page