Vitória Regea
- 5 de nov. de 2016
- 5 min de leitura
“Eu sempre fui uma gozadora, a minha intenção – tanto é que cheguei aqui pobre – era me divertir. Eu estava no teatro me divertindo”, declarou Vitória Régea, que começou sua carreira quando foi abordada na praia por Renata Fronzi e Cesar Ladeira. O casal realizava um espetáculo na Boate Acapulco, localizada na Av. Copacabana, 129, “nunca esqueço desse endereço. Hoje é o Banco Nacional”.
Acompanhada da irmã, a ex-vedete estava sentada na areia, em frente ao Copacabana Palace, com os cabelos negros e longos até a metade das costas, quando ouviu a sua futura companheira de profissão se direcionar ao locutor de rádio e dizer: “Olha Cesar, que tipo bom ai!”, apontando em sua direção. “Eles precisavam de uma mulher não negra, mas da tua cor também não servia, brancona assim não servia, tinha que ser morena!”, justificou a escolha dos artistas por ela.
Quando perguntaram se ela gostaria de trabalhar em teatro, a resposta foi imediata: “Quanto paga?”. “Eu não tinha vedetismo nenhum, eu queria saber quanto pagava porque eu trabalhava na Exposição Carioca e ganhava 1.000 cruzeiros. Era 600 de taxa fixa e mais 400 nós ganhávamos pela big night”, confessou Vitória que fez questão de explicar seu trabalho, “Big night era um desfile que a Exposição Carioca… Ainda tem Exposição Carioca? Nem sei se tem mais. Era um magazine enorme bem no Lago da Carioca… Eles faziam nas quintas-feiras à noite um desfile de maios”. Na época, os maios catalina estavam em alta no mercado de moda por causa do sucesso feito no desfile da Miss Brasil, Marta Rocha.
O valor oferecido foi 2.500 cruzeiros, e ela aceitou. Trabalhando em teatro durante muitos anos, viajou com a Companhia Brasileira de Revistas para Portugal, França, Espanha e África, cuja equipe foi a primeira do país a pisar em solo africano. O acontecimento, além de ter sido o auge de sua carreira, tornou-se muito divulgado, dando credibilidade ao Brasil. O pagamento da excursão foi realizado em dólar, “retornei muito bem de vida”.
O dia 8 de maio de 1950, no entanto, não saiu bem como Vitória Régea planejava. “Cheguei no Brasil… Foi o meu azar… Eu fui recebida por três jornais que fizeram um estardalhaço da minha chegada e eu disse que iria beijar chofer de caminhão, chofer de praça, o chão, de tanta saudades que eu estava do Brasil!”, lembrou. “Ai, organizaram uma reportagem muito interessante e o título das primeiras páginas de todos os jornais do Rio de Janeiro seria: MATOU as saudades do Brasil beijando as pedras do cais”, contudo, o retorno da ex-vedete não aconteceu como o esperado.
No mesmo dia dois trens da Estação Mangueira se engavetaram deixando 300 mortos. “Foi um desastre muito grande. Ganhou as primeiras páginas do jornal e eu fiquei sem essa, que seria uma grande divulgação: a minha chegada!”, afirmou cabisbaixa por sua declaração ter rendido apenas uma nota embaixo da matéria sobre a tragédia. O lamento, entretanto, continuou até recordar um acontecimento envolvendo o Papa João Paulo II: “O Papa, quando esteve aqui, disse que ia beijar o chão do Brasil, ai alguém disse: ‘ei, pera aí, já teve uma vedete que matou as saudades do Brasil beijando as pedras do cais. Não foi o Papa que foi o primeiro, foi a Vitória!’”, recordou entre sorrisos o momento em que foi lembrada, com porte de quem se orgulha do trajeto que a sua história percorreu. A oportunidade de ser vista novamente pela mídia não lhe subiu a cabeça, “já estava querendo ir pro Retiro”, confessou.
Mesmo considerando que viveu a vida de forma muito relaxada, perdendo todo o dinheiro que adquiriu em seus trabalhos, Vitória acredita que a sua felicidade está exatamente no fato de ser uma pessoa “desligada”, como se caracterizou. “Eu nunca fui trec trec, que anda esmiuçando o destino, a vida, os acontecimentos… Não, eu nunca fui trec trec. Eu sempre deixei a vida me levar, ai deu certo. Para mim, deu certo!”, ressaltou, “Eu não sinto saudades nenhuma de palco, de voltar, de dançar, de nada, nada, nada. Foi um aprendizado”.
Vitória não casou, mas teve uma filha com o cantor de teatro Fernando Barreto, que já faleceu. Além de mãe, a ex-vedete é avó e bisavó. Foi com o dinheiro das viagens e trabalhos no teatro que ela comprou o apartamento em Copacabana que, atualmente, a filha mora. As visitas ocorrem especificamente em datas comemorativas, como o dia das mães, páscoa e aniversário, no caso, o dia 8 de dezembro. As conversas pelo telefone acontecem constantemente.
Todos os trabalhos e conquistas que a vedete Vitória Régea obtinha, buscava, de alguma forma, encaixar a sua irmã, a qual preferiu não revelar o nome. Os convites eram sempre negados pela mesma que afirmava a falta de aprovação da mãe como o principal motivo para não seguir a carreira. A mesma mãe, no entanto, sempre prestigiou Vitória na primeira fileira do teatro desde o dia em que foi abordada por Renata Fronzi e Cesar Ladeira.
Ao invés de considerar tal diferença como preferência, a entrevistada a todo o momento afirmava que os pais tinham maior consideração pela irmã, que entrou para o teatro algum tempo depois. Sobre a viagem que realizou, a artista chegou a ir até Niterói para convidar a irmã, que não apareceu no local que comumente ia, perdendo mais uma oportunidade.
Mesmo alegando não saber o motivo, ela acredita que a irmã sente muita mágoa dela, “porque eu sempre fui muito estabanada”, explica. Sobre como se sente com a falta de contato mesmo vivendo a uma casa de distância de sua irmã, a ex-vedete declara: “É um direito dela”. “Hoje ela me odeia, não gosta de mim não. Mas eu fui assim, se ela não acha o que eu vou fazer?”, completa.“Ela está aqui porque eu chamei!”, afirma Vitória que chegou ao Retiro dos Artistas através do humorista famoso da época chamado Colé, que presidia o retiro e, por isso, logo encontrou uma vaga para as duas irmãs.
“O que é ser feliz? Ser feliz é viver um momento feliz. Eu tenho momentos felizes”. Para a última entrevistada, nada a deixa triste, nem o fato de não conversar com sua irmã.
Me despedi e desci a rua. Lembrei-me que quando subia juntamente com o Hênio, que me explicava melhor sobre a próxima conversa que eu teria, ouvi o som da vassoura de palha próximo à porta aberta da casa azul que foi apontada durante todo o tempo por Vitória. A janela com cortinas brancas também estava aberta. No caminho de volta, olhei em direção à casa da irmã da ex-vedete.
A porta bateu com violência. As cortinas se fecharam.

Vitória Regea, Rio de Janeiro / 2014 - FOTO: Nathalia de Moura
Comentários