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Carmen

  • 12 de nov. de 2016
  • 5 min de leitura

Passei pela porta da Casa de Repouso São Bento e adentrei a sala, que acolhia mais três idosos além daquela senhora de aparência frágil, que recostada em uma cadeira branca de plástico e descansando suas pernas num pufe encoberto pela manta listrada em preto e branco que estava sobre suas pernas, voltou ao passado e contou sua história. Um misto de saudade e alívio, por não retornar mais ao tempo de sofrimento.


Carmen G. Sarli, de 93 anos, respirava com ajuda de um aparelho de oxigênio há 1 mês, desde que foi para o Pronto Socorro porque estava com falta de ar. No local, foi diagnosticada com água no pulmão e então realizaram uma punção e depois a encaminharam para o hospital, permanecendo por 20 dias no quarto até receber alta.


Chegou à casa de repouso porque ainda não terminou de tomar todos os remédios que necessita e lhe faltam algumas consultas para ir. “Acabou que nem fui pra casa… Vim direto pra cá!”, suspirou ao procurar um consolo e sorriu. Questionada sobre quando acha que sairá de lá, ela disse: “Ah bem… Não sei como o meu filho vai fazer, né? Porque agora a gente não arruma empregada e você sabe que tá tão difícil…”. Carmen não pode ficar sozinha em casa devido aos remédios controlados e a sua idade avançada, mas confessou: “Eu não vejo a hora de ir pra casa daqui a um pouquinho…”.


Nascida no centro de São Paulo em 23 de setembro de 1922, a senhora que parecia muito confortável vestindo a sua blusa cinza de estampa étnica e um cardigan cor mostarda, lembrou-se exatamente da região onde nasceu e cresceu. “Sabe a Praça Clóvis? Sabe a Igreja do Carmo? Aquela rua que acompanha a igreja, pega a avenida e aquela ruazinha… Eu nasci numa travessa daquela rua da Igreja do Carmo!”, explicou desenhando um mapa por meio de nossa imaginação.


Sobre sua história, foi enfática: “A minha vida era muito difícil!”. Depois de algum tempo doente, sua mãe faleceu quando estava com 11 anos, e desde então passou a cuidar de seus irmãos e pai. “Mesmo menininha eu cuidava da casa e fazia o que podia. E assim foi crescendo até a adolescência…”. Casou-se aos 17 anos, porque “naquela época ousava casar logo!”. O marido já estava com tuberculose – doença comum da época – quando eles assumiram o compromisso, e permaneceu assim por anos. O primeiro filho veio aos 19 anos e quando a segunda estava com apenas 3 meses, o marido faleceu.


Atuando como enfermeira, Carmen trabalhou no SESC por quase 20 anos, dando aula prática em enfermagem. Durante muito tempo fez viagens a trabalho para Bertioga, indo com as caravanas e voltando para São Paulo. Depois disso, tornou-se voluntária. “Conhece a Casa Transitória? Trabalhei 40 anos como voluntária, com velhinhos e crianças”, contou como se estivesse vivenciando novamente aqueles momentos. “Fiquei muitos anos lá e ainda hoje vou visitar! Arrumei uma equipe pra fazer uma vez por mês um almoço especial pras velhinhas”, disse com ar de satisfação com a missão que tem cumprido. “A vida oferece as coisas e a gente procura fazer o melhor possível”, completou.


O primeiro filho faleceu aos 70 anos, depois de viver por muito tempo como alcoólatra – “mas eu consegui fazer ele sair” – e fumante – “lutei tanto pra deixar e não deixou”. “Quando ele foi pro Pronto Socorro estava todo trancado. Fizeram de tudo, fizeram traqueostomia e nem isso resolveu!”, relembrou com pesar. “Ele era um bom companheiro, mas já estava com 70 anos e faleceu por conta do cigarro. Isso ai é a pior coisa que tem pra saúde…”. Após esse episódio, passou a fazer palestras sobre os vícios.


A segunda filha é viúva e mora em Águas de Lindoia. Perdeu um filho aos 30 anos, e o segundo mora com Carmen, que saiu das drogas e conseguiu um bom emprego graças a ajuda da avó. No meio de nossa conversa, lembrou-se que sua filha iria visitá-la naquele próximo final de semana. “Ela gosta de lá (referindo-se a cidade da filha). E nem quero que ela perca o que tinha tanta vontade de fazer!”, desabafou.


Casou-se novamente quando tinha entre 28 e 30 anos, “e tive mais dois filhos com esse meu marido que era um anjo de bom também!”, disse. Um filho lhe deu duas netas, uma com 20 anos e outra com 18, da união com Giuliana, que Carmen fala de modo muito grato: “eu tenho essa norinha que é muito legal, muito amiga e muito boa pra mim!”. Já o outro filho, lhe deu dois netos, um com 22 anos e outro com 20. Enquanto falava dos filhos, lembrou de Luis, que é publicitário e também mora com ela. Sobre o filho e o neto que dividem o mesmo teto com ela, confessa: “Mas assim, eles trabalham, saem de manhã e voltam de noite. Outro trabalha e vai pra faculdade… Acaba que não dá tempo pra nada!”.


Antonio Sarli, seu segundo marido, faleceu aos 84 anos – “e eu fiquei por aqui…”, fala ainda mais baixo que o habitual, suspirando e olhando com os olhos marejados para os dedos que giravam a aliança de sua mão. Amigo de seus irmãos, Antonio foi apresentado a Carmen por eles. “Ele gostou de mim e eu tava tão sozinha na vida que eu fiquei. Aceitei.”, silenciou. “Até lá em Bertioga, eles iam me dar uma casa pra morar. Mas ele não deixou e vivemos 50 anos!”, sorriu.


“Sente falta dele?”, perguntei já sabendo a resposta que seus olhos denunciavam, “Ah muita! Deus me livre!”. Desde o falecimento de Antonio, Carmen entrou em depressão e emagreceu 40 quilos, “eu tenho medo de me ver agora… Não sei o que aconteceu, se foram os remédios…”, se justificava sem necessidade. “Ele era companheiro, amigo, sabe? Compreensivo… Era tão bom, tão boa pessoa, companheiro…”, disse enquanto os olhos vagavam nas lembranças que conseguia enxergar. “Ele era um anjo na vida, por isso foi antes que eu!”.


Carmen não tem arrependimentos, “por enquanto não, mas também daqui pra diante nem vai ter, né?”, falou dando uma risada tímida que logo foi interrompida quando questionei sobre uma alegria que teve durante a vida. “A minha alegria foi o meu marido, o segundo. Que foi o anjo da minha vida. Não esqueço dele um minuto. Nunca!”, disse sem titubear. “Olha, nem tirei a aliança desde que ele faleceu. Nunca mais tirei”, acariciou a aliança e se perdeu nas lembranças.


“Essa é a história da minha vida, mais ou menos por cima”, disse ao levantar os olhos em direção aos meus. “Tanta idade e tantos problemas. Mas não são problemas, são aprendizados da vida!”, me ensinou. Encerrou nossa conversa me chamando para um café em sua casa, e eu não podia negar nenhum pedido para aquela senhora de aparência frágil, mas que me ensinou o poder que há ao ser amada.



* Escolhi o Tiago Iorc como trilha sonora dessa história.




Aliança de Carmen, São Paulo / 2016 - FOTO: Nathalia de Moura

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