Primeiro beijo
- 17 de dez. de 2016
- 3 min de leitura
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Uma pessoa que chegou na hora certa. Dele também foi o meu primeiro beijo. Não como em um conto de fadas, que o beijo é do primeiro amor, daquele que casou. Mas o meu primeiro beijo foi de quem fez desse momento o melhor – mesmo depois de 5 ou 6 amores.
Ele não foi o primeiro, mas a sensação que tive ao ser beijada por ele, naquela grande e escura sala de cinema, me fez tão inexperiente como aos 13 anos no corredor da escada de emergência da escola, quando o tal garoto novo e popular me propusera uma “ficada”. Não lembro seu nome, tampouco seu rosto, mas aquele beijo estranho com gosto de cigarro, bala de hortelã e muita saliva pareciam pagar um desafio feito pelos amigos dele. Mal pude respirar naqueles minutos que antecediam a sirene do intervalo! Foi a sensação que pretendi apagar da mente até o final daquele ano.
Sem desprezar nenhum amor vivido nos 9 anos que se passaram desde aquele dia, pude experimentar, aos 22, o que sempre imaginei ao ler os livros de romance da adolescência. Era mais uma saída para o cinema como em tantas outras que tivemos no curto prazo de dois meses que nos conhecíamos, mas dessa vez a diferença estava na declaração que fizera na viagem daquele último final de semana que antecedera esse momento.
Quarta-feira à noite. Era o filme que eu queria ver, no local que sempre quis ir. A conversa fluía como em todos os encontros, mas naquele dia eu sentia que o peso formado em cada palavra podia mostrar mais de mim. Uma sensação tão vertiginosa que eu queria poder controlar. Aproveitar o momento. Não deixar escapar pelos dedos.
Ele estava impaciente – segundo ele, isso nunca ocorrera. Eu fingia que não percebia – e também que acreditei nas palavras que dissera mais tarde. A cada virada de rosto dele para me observar, eu travava os olhos na imagem do filme. Não lembro qual e nem sobre o que falavam, mas aquela sensação me obrigava a controlar a respiração que teimava ficar ofegante.
E sempre que ele virava para frente, conseguia se aproximar mais de mim. Seus dedos se entrelaçaram de novo nos meus. Ele estava frio. A sala escura ficava cada vez maior. A sensação que eu iria desmaiar também. “Meu Deus! Nunca me senti assim!”, pensava tentando buscar na memória algum momento parecido.
ELE VIROU de novo. Agora mais perto que nunca. Eu conseguia sentir sua respiração em meu ombro, e agora, em meu rosto. Seu braço direito passou à minha frente, tocando os meus cabelos com seus dedos gelados, que passearam pelo meu rosto, encaixando-se em minha nuca… O seu nariz tocara minha pele… Tão delicado… Fechei os olhos e falei “a gente não pode fazer isso”, e numa ação de compreensão ele assentiu com o rosto, trazendo o meu para mais perto do dele.
Beijou-me. De maneira leve e delicada, percebi seus sentimentos controlados passarem por ali. “Está tudo certo”, eu tentava mentalizar mesmo achando que derreteria tamanho calor. A sensação era de 42ºC. A dele de -9ºC. Fui conduzida de maneira tão singular que mal pude perceber que, talvez, aquela impressão estivera trocada. Eu só não conseguia parar de constatar que aquele fora o melhor momento da minha vida.
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