No meio do caminho
- 26 de dez. de 2016
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A previsão para aquele sábado era de tempestade, mas o dia havia amanhecido quente, e apesar de nublado, os raios de sol despontavam tímidos por entre as nuvens. O convite de ida até a praia soou como uma certeza, então em pouco mais de uma hora já estávamos todos dentro de um carro a caminho da Praia Grande.
Foi nesse trajeto – fugindo de todas as maneiras possíveis do trânsito que nos cercava – que vi aquele homem que tinha na cor de sua pele a mistura da sujeira carregada do tempo vivendo nas ruas. O cabelo comprido estava num emaranhado de dreads que a própria vida se encarregou de fazer com a falta de cuidado... Eles tinham o tom acinzentado com partes brancas, mas nada parecido com o grisalho natural que acarreta centenas de idosos.
Não foi a situação precária, o levantar do chão de maneira cansada, o olhar perdido no caos, a postura conformada com o próprio futuro desenhado, e nada que cotidianamente podemos encontrar pelas ruas de São Paulo que me chamou a atenção. Mas ele usava uma regata feminina preta estampada com cores vinho e branco, um short jeans justo e um par de chinelos pretos que calçava metade de seus pés. Por mais estranho que pareça, suas roupas não conversavam com uma possível escolha sexual, ela parecia falar mais sobre uma provável falta de opção da vida.
A estrada que o levou para aquela esquina, para a companhia daquele pedaço de coberta que carregava a tira colo, para aqueles trajes que visivelmente não pertencem a quem ele é, é um mistério para quem não o conhece. Quem sabe, talvez seja para ele também.
“Qual foi o momento em que ele se tornou alguém que não sonhava em ser?”, perguntei-me diversas vezes. E minha cabeça girava...
“Qual a circunstância que fez aquele homem abandonar sua dignidade porque não havia outro meio de sobreviver?”; “Por quantas vezes recebeu a indignação do outro ao invés de um abraço estendido?”; “Por quanto tempo relutou para não chegar ao ponto final que a sua história estava escrevendo?”; “Quantas vezes precisou renascer para não ser engolido por seus sentimentos?”.
Ninguém está imune de se perder no meio do caminho e de, de repente, olhar para si e não enxergar quem projetava ser enquanto estava protegido no passado. Uma vez li que “coisas boas acontecem para pessoas boas”, e de fato havia me apegado a isso mesmo que a frase tenha saído de um romance da Jojo Moyes. Mas naquele momento, foi inevitável pensar que a vida corre como um rio trapaceiro para algumas pessoas.

Quilômetros depois de ver o senhor desse texto, paramos no semáforo e surgiu essa cena: uma menina em pé no ombro de um adolescente, fazendo malabares. Em sua camiseta estava escrito: MEDICINA - USP. Espero que um dia ela viva a experiência que carrega estampada no peito;
2016 - FOTO: Nathalia de Moura
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