Sobre infinitos
- 10 de jan. de 2017
- 3 min de leitura
À esquerda, o meu avô Pedro com o seu chimarrão. À direita, minha avó
Luiza sempre na cozinha. (in memorian) | FOTO: arquivo pessoal

Já ouvi falar que envelhecer nos ensina a dar valor às coisas simples da vida. Que em algum momento o olhar muda e nos tornamos capazes de reparar nas peculiaridades da vida. Acredito que é nesse instante que entendemos que os bons momentos estão guardados nesse lapso de beleza.
Quando eu era pequena, as férias de verão eram passadas em Concórdia, oeste de Santa Catarina. Lembro que a cidade, com pouco mais de 72 mil habitantes, tinha o clima abafado no calor – o que não lembra em nada a época do inverno, que a temperatura chega a ficar negativa.
Lembro-me de andar quilômetros afinco pelo asfalto com a sensação de que o Sol estava estrategicamente posicionado bem em cima da minha cabeça. Caminhava em passos largos e sem olhar para trás, com o semblante contraído, focando em chegar logo ao meu destino (que eram, basicamente, dois: a casa dos meus avós ou da minha tia). A boca seca, o silêncio quebrado por alguns carros ou crianças gritando no jardim de suas casas, o meu pé sujo com as marcas do chinelo, o “boa tarde!” dos moradores sentados na porta de casa com seus chimarrões e o cheiro inconfundível e único de carvão queimando...
A chegada era sempre um alívio. Quase engatinhando de tão exausta, eu tirava o chinelo antes mesmo de me jogar pela porta. O rádio ligado, as modas de viola tocando, o aroma inconfundível do pão assando, o fim de tarde de mãos dadas com a temperatura que caia e o cheiro de grama molhada que subia. A lua despontando, o céu escuro iluminado pelo brilho das estrelas.
A mesa cheia. “De noite nóis só lancha”, dizia a minha tia professora com o seu sotaque carregado. O leite esquentando, o café caindo como um rio pelas xícaras, a chaleira apitando, a mortadela e o queijo em pedaços prontos para serem cortados desastrosamente por mim, que logo recebia um olhar atento de minha mãe por ter estragado a forma que eles tinham. Pessoalmente, o som mais forte que ouvia era do gás do refrigerante quando a tampa finalmente girava. “Como eles conseguem tomar essas coisas quentes?”, eu pensava ao virar a garrafa quase maior que eu e colocar a bebida trêmula dentro do copo. Havia muita comida, muitos doces e salgados de vários tipos, para cinco pessoas.
Quando estava no início de minha adolescência, a prefeitura asfaltou a rua da casa de meus avós. A partir de então, os caminhões não passavam mais levantando poeira como faziam, mas a cena continuou a mesma por anos: minha mãe sentada no último degrau da escada, com a porta aberta, olhando para dentro. Ora ela estava num ritmo frenético de quebrar as nozes com um martelo, pegar a semente e leva-la até a boca – com o saco cheio delas no colo; ora estava com os pés enfiados numa bacia de água, com um pano apoiado nos joelhos, fazendo as unhas.
Essa rotina não era exatamente o que eu planejava para as minhas férias, porque para uma criança era algo monótono, parado... Feito para pessoas que trabalhavam duro o ano todo e precisavam de um lugar aonde o problema não chegava, seja pela distância ou pela falta de sinal.
Mas andando pelas ruas de São Paulo, à tarde, enquanto o sol forte não dava descanso mesmo na sombra, aquele cheiro de infância ressurgiu e o meu olhar mudou. Eu levantei o rosto e vi que o mesmo céu azul e sem nuvens de quando eu era criança ainda estava sobre mim. O aroma do carvão queimado invadiu minha lembrança e pude sentir aquele gosto do chimarrão experimentado por diversas vezes até me acostumar. Que saudade bateu!
Foi quando passar o final do ano na cidade de minha mãe parou de fazer parte da minha rotina, que eu percebi quanta beleza havia em cada espaço de tempo vivido. Que alívio perceber que a intensidade não acompanhava apenas as estações do ano, mas também os meus sentimentos. Há dois anos, quando visitei Concórdia, a cidade parecia ter estacionado naquele tempo e voltado à sua rotina quando cheguei. Mas, na verdade, ela só permaneceu guardada em meu coração e, silenciosamente, foi regada pelas histórias que me permitiu viver. Como o romancista John Green escreveu em um de seus livros, "alguns infinitos são maiores que outros". E lá está o meu infinito, a minha raiz, o lugar que não importa onde eu esteja sempre me levará de volta para onde devo estar.

Esta é a rua que eu falei nesse texto. | FOTO: arquivo pessoal
Comentários