O encontro
- 24 de jan. de 2017
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Aos 11 anos, o sentimento próximo ao amor acontecia da seguinte forma para Augusto*:
“Filho, amanhã a Sara* chega com os tios para passar uns dias aqui em casa”, informava a mãe como se estivesse usando uma carta na manga infalível para que o garoto colocasse a bagunça em ordem. Augusto sorria, abaixando o rosto um tanto corado, e logo corria para aprontar todas as coisas inacabadas.
Quando Sara chegou, Augusto se transformou. Não era mais aquele menino concentrado em seu vídeo game, sentado em frente à televisão com seus enormes fones de ouvido, e que só trocava de posição se fosse para ficar deitado no sofá com o seu celular em mãos. Agora ele vestia uma capa dos Minions e subia nos bancos aos gritos quando vencia a brincadeira Detetive. “Eu não consigo me levar a sério com essa capa dos Minions”, explicava o menino ao perceber o olhar desconcertado de Sara que, aos 15 anos, gostava de cantar “Equalize”, da Pitty, olhando de soslaio para o amigo.
Aos 18 anos, porém, o sentimento próximo ao amor acontecia diferente para Carlos*, irmão de Augusto:
“Filho, amanhã a Marina* virá aqui em casa com a Camila*, irmã dela”, contou a mãe com a expectativa alta para ver a reação do filho e de seus amigos com os hormônios sufocados no próprio corpo. “Quem é Camila?”, perguntou um desavisado. “Cara, é uma mina muito gostosa!”, respondeu Carlos de prontidão. Todos ficaram ouriçados, com tremeliques, esfregando as mãos suadas pelos rostos que despontavam sorrisos esperançosos.
O assunto continuou, mas a moça se igualou a todas as outras que foram citadas no decorrer da conversa – até porque, depois de muitas latinhas de cerveja, a experiência dos rapazes já não era segredo para ninguém! Mesmo que o desejo unanime fosse para que Camila chegasse no dia seguinte (o que não aconteceu para a tristeza geral), Carlos não desgrudava do celular. E enquanto ele passava o dia conversando com a namorada que ficara em São Paulo, um de seus amigos relatava o conflito que sofria em começar a namorar uma menina que ele gostava bem no ano em que entraria na faculdade. “Eu quero pegar todo mundo, entende?”, perguntava com uma expressão honesta pedindo cumplicidade.
*
O amor sempre chega, seja pelo olhar envergonhado durante a infância ou pela confusão de sentimentos que a adolescência acarreta (o que fazer com o desejo desenfreado pelo outro?). Parece piegas, mas o fato é que um dia encontramos alguém que conseguirá unir todas as sensações em uma só. Aquela pessoa que, sem perceber, fará você cantar os clássicos de Sandy e Júnior olhando pela janela embaçada do ônibus em um dia de chuva. E o desejo... Ah, esse que antes tomava controle das ações, agora tão centrado em sua função só cumpre o dever de unir aqueles corações que desejam ser encontrados.
Quando o amor acontece nenhum sonho pessoal torna-se empecilho para o casal, porque a vontade de ver a realização do próximo torna o projeto tão seu quanto dele. Você compra a ideia, o plano e até as dividas porque acredita – não de forma cega e pouco prática – que o que o outro quer é tão bom quanto qualquer sonho seu. E os dias difíceis vão surgir, as lágrimas vão cair e muitos chocolates serão comidos juntos para mostrar, no final, que não foi só o esforço que valeu a pena, mas o caminhar lado a lado com a pessoa que o amor escolheu.
No amor você aprende a lidar com as diferenças, e se você ainda der sorte da tranquilidade ser sua parceira, vai entender que o seu jeito pode ser bom só para você (e isso não é um problema!). Então você começa a colocar a comida dele sempre no prato fundo porque ele prefere, enquanto você, confortavelmente, come no seu raso e espaçoso. E ele vai terminar de comer e ainda esperar você dar a última garfada 20 minutos depois, sentado ao seu lado, porque ele sabe que você não gostaria de terminar uma refeição sozinha.
Há momentos em que idealizamos o amor perfeito com direito a listas, promessas e algumas superstições, sendo que, na verdade, o segredo está em ser aquele que você gostaria de receber; aquele que mesmo em meio a um mar de defeitos que existe para todos os seres humanos, o coração permanece firme em cima da rocha chamada reciprocidade (do latim, "correspondência mútua"). Como diz a música “Someone in the crowd”, que compõe a trilha sonora do musical La La Land:
“Alguém na multidão
Poderia ser a pessoa que você precisa conhecer
Aquela que finalmente te fará flutuar
Alguém na multidão
Poderia levá-la onde você quer ir
Se você for aquele alguém pronto para ser encontrado”
E quando o amor encontrar você, por favor, não o deixe ir!
* A história é real. Por esse motivo, os nomes foram alterados a fim de preservar a identidade dos envolvidos.

FOTO: Fernanda Benedito
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