O homem que luta com Deus
- 16 de fev. de 2017
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Israel tem 33 anos. Nascido em Belém do Pará, no dia 25 de Janeiro de 1984, um dos significados de seu nome é “homem que luta com Deus”. Entrou no ônibus 175T-10 Jabaquara quando estava passando pela região do centro de São Paulo e com tantos lugares para sentar, descansou ao meu lado.
“Esse ônibus vai para o Aeroporto de Congonhas?”, perguntou secando o suor, apoiando a caixa fechada de papelão no chão ao lado do banco. Depois que eu confirmei, ele continuou “Ah, então você pode me avisar quando passar por ele? Por favor?”, assentou-se colocando a mochila de couro preta visivelmente pesada no colo. “Claro, eu só desço no ponto final”, respondi. E foi assim que começou uma conversa que durou cerca de 40 minutos, até que ele chegasse ao seu destino.
Formado em direito, Israel viaja todo o Brasil prestando concurso público, e estava em São Paulo para tentar uma oportunidade no Tribunal Regional Eleitoral. A prova ocorrera no último domingo, 12 de Fevereiro, e sua viagem de volta para casa, no Belém do Pará, estava agendada para as 18h00 daquela segunda-feira. Dias depois, ele viajaria para mais quatro lugares em busca de seu sonho: Manaus, Rio de Janeiro, Fortaleza e Belo Horizonte. Naquele momento, no entanto, ele retornava da Rua 25 de Março.
Dentro de sua mochila havia centenas de saquinhos transparentes diferentes que ele não encontrava em sua cidade. “Já comprei logo um estoque grande para colocar as mercadorias da minha loja”, contou o comerciante que além de advogado, também trabalhava no banco. Na loja, ele vendia bijuterias. No banco, trabalhava das 11h00 às 17h00 e raramente conseguia fazer um acordo com seu chefe para mudar o horário, sem precisar pegar atestado com a amiga médica para realizar seu sonho de ser advogado concursado.
Antes de descer, entrou um rapaz com uma caixa de wafer de chocolate da Bauducco, vendendo por R$ 2,00 cada para pagar a alimentação de sua filha de três anos. Ele distribuiu um pacote para cada passageiro daquela parte traseira do ônibus, e Israel logo sacou sua carteira e tirou a nota azul. “Você gosta disso?”, perguntou para mim. “Ah, gosto, mas não precisa comprar!”, enfatizei. “Ah não, fique tranquila, vou comprar só para ajudar o rapaz. É que eu não gosto dessas coisas!”, disse mostrando sua sacola de plástico com seus sanduíches e suco natural. Entregou a nota e o seu pacote para o rapaz, deixando a que fora entregue para mim, comigo. Agradeci.
“Você chegou, já é o próximo ponto!”, avisei enquanto ele saltava os olhos para fora do veículo, avistando o avião que levantava voo. Enquanto colocava a mochila pesada com dificuldade nas costas, tentando se equilibrar no ônibus lotado em movimento, desabafou sobre a namorada que queria casar a qualquer custo, mas não pensava em fazer uma faculdade. Confortou-se com a possibilidade dela ser tão esforçada quanto ele, apesar da falta de estudo. “Se eu não a amasse tanto, com certeza já não estaria com ela”, afirmou. E desceu, deixando-me com as mãos ocupadas pelo wafer e com uma sensação boa no coração.
Há alguns dias me pego pensando sobre quem o ser humano tem se transformado com o correr dos anos. Hoje, trabalhando diretamente com o público sinto mais latente a falta do amor e empatia com o próximo. A gentileza em dar passagem para um carro ou pedestre na rua; a educação em elevar o trabalho do outro como algo realmente importante; a consciência da valorização do tempo da pessoa, abandonando o ego e compreendendo que todos nós somos iguais é o que faz a diferença para se viver bem em sociedade.
A minha esperança se esvai conforme surge cada experiência negativa com o homem*. Uma passagem bíblica localizada em Mateus 7:12 diz que “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas". Ela não diz apenas para não fazer o mal porquê ele retorna, mas aconselha para que o bem seja feito em todas as ocasiões.
O bem não é só ajudar os necessitados (seja financeiramente ou não), não falar mal de outra pessoa ou não agir de má fé. O bem pode significar o que está em Filipenses 2:3 “(...) cada um considere os outros superiores a si mesmo”, colocando-se no lugar do próximo com a visão de como você se sentiria naquela situação. “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; (...)” é o início do versículo, que não apresenta a realidade deste século. A dificuldade em fazer o bem aumenta tão quanto não colocar os interesses pessoais por trás de uma atitude boa.
Israel representa bem o significado de seu nome. Ele luta com Deus para realizar seus sonhos, seja trabalhando em três empregos ou viajando cerca de 3h30 para fazer uma prova. Ele conta todas as suas dificuldades para concluir a formação, manter seu comércio ativo e o relacionamento honesto com a amada. Israel preocupa-se com o dia perdido no trabalho, com uma tranquilidade até controversa de que todos os seus afazeres estão em ordem. Ele conta suas conquistas, com os ouvidos atentos às necessidades do próximo, mesmo que naquele momento ela não conciliasse com a sua. Ele acrescenta na renda do vendedor ambulante independente se sua história fosse verdadeira. Ele pensa que é.
Ele conquista seu mundo passo a passo, ajudando o próximo a conquistar o seu espaço também. Para aquele jovem rapaz que adentrou o ônibus pelas portas dos fundos, ele repartiu seu dinheiro. Com a jovem cansada sentada ao seu lado, a esperança.
* homem, neste caso, não se refere ao sexo masculino, mas ao ser humano.

Wafer comprado por Israel e devorado por mim.
FOTO: Nathalia Moura | 2017
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