Carlos Costa, o Carlão da Vila Maria
- 1 de mar. de 2017
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FOTO: Nathalia Moura | 2016

Carlos Costa era o homem do povo. Não apenas pelo significado de seu nome, mas porque o ator também conhecido como Carlão da Vila Maria não dispensava um Carnaval. Para reforçar essa verdade, o nome “Carlos” acompanha até a sua cidade natal, São Carlos, em São Paulo. Sua família mudou-se para Araraquara após o pai ser transferido como ferroviário da Cia. Paulista de Estradas de Ferro, e foi ali que ele passou boa parte de sua infância.
Aos 12 anos, o carnavalesco chegou ao bairro da Vila Maria, localizado na Zona Norte da capital Paulista, com seus pais e sete irmãos, sendo duas mulheres e cinco homens. Sebastião era o seu irmão mais velho e muito conhecido pelo bairro como Azulão do Samba, devido aos carnavais que produzia na Vila Maria. Desde que chegou naquela região, em 1947, Carlos fixou sua residência até o dia em que foi levado para a Casa de Repouso São Bento, na Zona Leste.
Em 1960, o Azulão do Samba realizou um carnaval que partia da ponte da Avenida Guilherme Cotching. “Nós morávamos ali na Rua Antônio Fonseca, que é a primeira travessa passando a ponte e ia até a Igreja da Candelária e voltava”, relembrou. O encontro era feito com vários clubes de futebol como o Bandeira Paulista, Flamengo e o Bem Fica. No entanto, “como tudo começa, tudo acaba. Então acabou”, lamentou.
Carlão também pertenceu a Escola de Samba Unidos de Vila Maria, onde foi “diretor e tudo mais” entre 1967 e 1968, “no tempo que o Dito era presidente e o Ananias era o tesoureiro”. “A Escola da Vila Maria foi fundada por cinco pessoas, deixa eu lembrar o nome... Dito Caipira, Mané Sabino, Xangô de Vila Maria, o Joãozinho da Feira e o outro eu não sei... Acho que foi só isso aí”, falou segurando o dedo mindinho direito com o dedo indicador e polegar esquerdo, fixando o olhar num ponto, afim de forçar a memória e trazer à lembrança os acontecimentos.
Ele cresceu, estudou e se formou em contabilidade. “Naquele tempo não tinha faculdade de contabilidade, era curso técnico”, explicou, e ainda lembrou que cursou “a Escola de Contabilidade no Brás, que era de um político muito famoso na época, o Hilário Torloni”. Por algum tempo Carlos trabalhou na área contábil, mas focou seus esforços em firmas e outros negócios, “trabalhei de vendedor... Trabalhei em serviços assim”, disse.
“Eu fundei a Banda Redonda!”, animado. “Tem muitas bandas em São Paulo, mas a mais famosa e número 1 é a nossa!”, afirmou com a certeza de que havia feito um bom trabalho. “Eu vou explicar pra você: Banda, Bloco e... e o que mais? Banda, Bloco, e... São diferentes de Escola de Samba, né. E o Cordão Carnavalesco também! É tudo diferente de Escola de Samba”, contou explicando que a Escola de Samba é basicamente o samba com os seus componentes específicos, que diferem das outras linhas. “É Escola de Samba por quê? Porque é onde se ensinava samba no Rio de Janeiro”, exemplificou.
Saudoso, recordou que os maiores compositores de Escola de Samba, “os bamba mesmo do samba no Rio, os Velha Guarda foi o Cartola, da Mangueira, e o Paulo, da Portela”. Esses dois nomes, em 1930, formaram a Escola de Samba, “porque antigamente tinha blocos carnavalescos”, que, de acordo com as suas explicações, nada mais era do que um ajuntamento de pessoas amigas e pessoas de fora. “Ai formou o que é hoje: bloco com 30 mil pessoas... 40 mil pessoas. Mas, antigamente, era coisa de família”, ponderou. Da mesma forma aconteceu com as Escolas de Samba: em seus terreiros, formaram-se os blocos com o único intuito de se divertirem, uma vez que ainda não havia a contagem de votos.
Com propriedade e convicção no que estava falando, esclareceu as diferenças entre Escola de Samba, Banda e Bloco, e foi assim que iniciou a história da Banda Redonda. Em 1966, Carlos concluiu um curso de teatro e conheceu o autor Plínio Marcos. “Ele foi um dos maiores dramaturgos aqui de São Paulo e do Brasil! Foi preso muitas vezes porque ele falava contra as situações dos milico, da ditadura da época”, relembra subindo e descendo a manga de sua blusa comprida, e esfregando as mãos ásperas uma na outra.
Enquanto o ato se repetia, ele continuava: “Então eu fiquei conhecendo ele e ele me chamou: ‘Ô Carlão, eu preciso de um ator igual você, mas preciso de uma pessoa pra vender os espetáculos que eu tenho na televisão’”, falava entre um sorriso e outro, sempre cabisbaixo, com um tom baixo e envergonhado, levantando e abaixando a boina rente aos olhos. Plínio trabalhava na TV TUPI, e como não podia fazer o trabalho que acabara de oferecer ao colega, Carlos aceitou. “Ai eu fiquei trabalhando 22 anos com ele, acredita? Mas eu tinha meus papeizinhos de teatro também, cinema... Ele me arrumou”, explicou. “Peça de teatro do Plínio eu fiz o... como é que é? O.... Ô meu Deus! O... Os Miseráveis não, os... os... Dois Perdidos Numa Noite Suja! Ahn... Ahn... E o que mais... Olha moça, eu fiz umas cinco peças dele, mas não me vem na memória”, desabafou com um certo pesar.
O gesto de passar uma mão na outra ficava mais intenso a cada lembrança. “No Rio de Janeiro eles formaram o negócio de banda né, porque tinha muito bloco lá. A Mangueira tinha bloco, a Portela, e não sei mais quem. Ai o pessoal de teatro do, da... Como é que chama? O lugar famoso lá do Rio, pô!? Deixa eu lembrar... Isso eu tenho que lembrar...”, dizia como se estivesse sozinho no ambiente, falando com seus pensamentos... “Ipanema!”, comemorou em alta voz e aliviado. “Ai o pessoal de Ipanema formaram a Banda de Ipanema. Isso foi... Acho que em 60 e... 60 e... 64 ou 65. Eu não lembro bem...”, terminando a frase com os olhos fixos no braço direito que já começara a descascar de tanto que coçava.
“Mas eles formaram essa banda de Ipanema com os artistas de teatro. Nara Leão, Zé Keti (o compositor José Flores de Jesus), o... o coiso, como é que chama? O... Poxa, ele é da Mangueira, O... O cantor... O bamba da Mangueira... O Jamelão! E outros artistas. Aquela menina que canta até hoje, como é que chama? Ela fez um show ai agora, há pouco tempo...”, depois do silêncio, foi vencido pelo esquecimento, “então, eles formaram a banda de Ipanema e os jornalistas, o Sérgio Cabral – ele foi o nosso amigo! Ele foi o maior jornalista do Brasil”, ressaltou o amigo ao se ajeitar na cadeira e enfatizar que “a Banda de Ipanema começou pequena, e agora já está com 90 mil, 150 mil pessoas”.
Sabendo da novidade que havia se propagado pelos dias de Carnaval na cidade carioca, Carlão não perdeu tempo e chamou o amigo Plínio para formar uma banda só de atores em São Paulo. O nome surgiu em homenagem ao Bar do Redondo frequentado por eles e que tinha a sua frente arredondada, localizado em frente ao Teatro Arena, próximo as Avenidas São Luís, Consolação e Teodoro Baima, no centro da capital paulista. “Era um pessoal intelectual que frequentava lá. O pessoal da USP, os professores, estudantes,...”, contou.
Contudo, antes da banda ser batizada com o nome que faz sucesso até os dias de hoje, ela saiu “em 69, 70 e 71, como Banda Bandalha”. Isso porque, “o Plínio Marcos que era de Santos saía lá num bloco chamado Bloco dos Bandalhos”, que foi inspiração para o começo da banda. Logo na primeira aparição, ele destacou que, “saiu até Nicette Bruno, Paulo Goulart, o Plinio Marcos, a mulher dele que era uma grande atriz, a Walderez de Barros. Mas um pessoal legal né, um pessoal bom que era conhecido nosso. Participou muita gente, que não dá pra contar!”, afirmou. Mas surpresas além das presenças confirmadas ainda estavam por vir... “A gente pensando que ia sair de lá com umas 300 pessoas, saímos logo com duas mil! Então foi um acontecimento, toda a imprensa de São Paulo foi”, e nessa altura a voz já estava carregada de emoção e euforia, como se aquela cena estivesse acontecendo bem na sua frente. As mãos se entrelaçavam com firmeza.
Em 1972, Carlão teve a ideia de sair com a Banda no Sábado de Aleluia. Como eles precisavam da verba que a prefeitura liberava, Plínio, que era um jornalista influente na época, encontrou-se com o Secretário de Cultura para conversar sobre o assunto. Sem mais delongas, o pedido foi negado. “‘Ah, eu vou dar verba pra carnaval?’”, foi a frase que o então Secretário usou como resposta ao jornalista. Segundo o ator, ele “era um intelectual, mas anti-carnaval, né!?”, e a conversa continuou, “Aí o Plinio disse: ‘Olha, eu não vou sair com nada’”, e essa decisão veio com algumas outras... “O Plinio escrevia, em 70, na Folha da Tarde. Ele escreveu umas quatro colunas contra ele (Secretário), chamando de reacionário, porque ele não sabia o que era cultura popular e nem nada”, recordou debochando entre risadas.
Apesar de o dinheiro ter sido negado, Carlos permaneceu com o plano de sair com a Banda no Sábado de Aleluia, mas Plínio foi enfático ao dizer: “’Olha, eu vou ver a saída da Banda, mas desfilar com vocês eu não vou’”. Com o afastamento do jornalista, a Banda Bandalha mudou o nome então para Banda Redonda, tendo o ator como principal diretor e o Bar do Redondo, que “estava na esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida Consolação, quase em frente à Igreja da Consolação. Era um lugar muito frequentado pelo pessoal da noite” como ponto de saída. “Pensei que seria um fracasso doido, né. Mas já saímos logo de lá com 500 pessoas e chegamos ao Largo do Paissandu com duas mil pessoas”, relembrou satisfeito.
“Saímos dali, descemos a Avenida Consolação, Biblioteca Municipal, Rua 7 de abril,... Não, 7 de Abril não, Rua... Como é que é, pô? Ahn.. A que vem da São Luís pro Teatro Municipal... Eu quero lembrar o nome, eu tenho que lembrar o nome... Rua... Ah, eu não lembro o nome!”, lamentou com os olhos vagos por debaixo da boina. Levantou o rosto, se ajeitou na poltrona e retomou, “a gente saia do Teatro Municipal e descia atrás do Teatro Municipal, na Rua Conselheiro Crispiniano, saia no Lago do Paissandu, entrava na Avenida São João, ia até a Avenida Ipiranga, e entrava a esquerda da Avenida Ipiranga e subia até o nosso teatro, lá em frente ao teatro que tinha uma praça boa. Então a gente parava e fazia um samba lá também!”. Segundo ele, na época, esse acontecimento foi um sucesso!
Os anos passaram e houve reeleições para decidirem o novo líder, mas o Carlão da Vila Maria permaneceu invicto. “O Plínio disse: ‘Óh, enquanto o Carlão estiver aí, eu ajudo a divulgar na imprensa’, porque o Plínio conhecia todo mundo da imprensa... até O Estadão publicava”, falou orgulhoso do amigo já falecido. Seus trabalhos também lhe renderam boas histórias e amizades que o tempo não apagou de sua memória: “Eu fiz teatro, fui ator, fiz cinema,... Fiz um filme com o (Antônio) Fagundes! De ator principal era o Fagundes e a sobrinha do Chico Anysio, a Cininha de Paula. Eu esqueci o nome do filme, não sei se é Jogo Duro ou o que que é... É que Fagundes foi amigo meu com 17 anos, um grande ator, né? Fagundes é um grande ator com a graça de Deus... E gente boa, sabe? Gente finíssima”, contou com gratidão os momentos vividos sem lembrar, até o fim de nossa conversa, que esse era realmente o filme do qual falava.
Enquanto a sua história seguia na direção do trabalho – sempre caminhando lado a lado com a diversão – Carlos recordava os seus ganhos, os bons resultados e todos seus feitos realizados. No entanto, nessa estrada, ele carregou até do dia 28 de janeiro de 2017 uma lamentação: “O meu arrependimento é de não ter casado, não ter tido filhos e tudo mais... Isso eu me arrependo de não ter feito!”, revelou. “Eu fiquei solteirão a vida inteira, e hoje tenho 83 anos e estou solteiro. Eu namorei né, mas com as duas mulheres que eu pretendia casar, não deu certo. Negócio de gênio, né?”, exemplificou já sem nenhum resquício da euforia de antes e os braços já vermelhos devido a inquietude de suas unhas por eles. O seu último relacionamento foi aos 56 anos, e como não deu certo, optou pela solteirice. Sem filhos, o corintiano ajudou a criar os sobrinhos que carregam o mesmo sentimento paterno.
Sobre a falta de uma família, a resposta sincera saiu sem que ele precisasse pensar muito: “Agora eu sinto (falta), né. Sabe por que eu sinto? Porque a gente era em sete irmãos, cinco já foram embora. Agora só estou eu e o caçula. O caçula é casado, ele tem a casa dele...”, referindo-se ao irmão Zé Maria Costa, que tornou-se o atual presidente da banda depois que Carlão foi internado com princípio de infarto e precisou mudar-se para a Casa de Repouso afim de manter todos os cuidados necessários.
Entretanto, as visitas são constantes “da sobrinha, do irmão (que o ajudava a manter-se financeiramente na casa e sempre gostava de pedir a sua opinião quanto a Banda), dos vizinhos de infância, do pessoal de teatro...”. “Eles sabem que eu tô aqui! Eu tenho a banda até hoje!”, afirmou. “(Eu) já estava sozinho, minhas duas irmãs tinham ido, minha mãe tinha ido, agora eu não vou ficar (só). Então eu me internei aqui!”, concluiu. “As minhas sobrinhas, cada uma tinha a vida dela também, mas uma disse: ‘Tio, enquanto você ficar nesse negócio de internado, eu fico com o apartamento e garanto tudo’”, explicou.
Após ter infartado no início de 2016, Carlos Costa foi internado no hospital e encaminhado, em seguida, para a Casa de Repouso. De acordo com Everaldo, o enfermeiro responsável pelo local, o ator chegou desnutrido, mas conseguiu se recuperar a tempo de sair para desfilar no carnaval daquele ano. Ele suspeita, porém, que foi nessa saída que o artista pegou uma micose por meio das roupas que usou e é por esse motivo que, incansavelmente, coçava os braços negros, secos, finos e de aparência frágil durante a nossa conversa.
Na última quarta-feira do mês de Janeiro desse ano (25/01/2017), o Carlão da Vila Maria sofreu um AVC hemorrágico e precisou ser internado no Hospital Villa-Lobos. Já no seu terceiro AVC e com um glaucoma avançado que o impossibilitava de enxergar, ele nos deixou no dia 28 de Janeiro antes mesmo de comemorar os seus sagrados dias de folia. No dia 20 de Fevereiro, contudo, a Banda Redonda saiu às ruas para homenagear o seu general da maneira em que o fez feliz durante 83 anos de vida.
O cortejo começou 40 minutos antes do previsto por conta da pressão feita pelos funcionários da Prefeitura, e depois de algumas manifestações políticas, passagens pelas ruas tradicionais e finalizando em frente ao Teatro Arena, a Banda Redonda manteve a sua tradição desde os primórdios: com a essência revolucionária e energizante desse carnavalesco que não combinada em nada com essa quarta-feira de cinzas.

Carlos Costa, o Carlão da Vila Maria FOTO: Nathalia Moura | 2016
(in memorian)
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