Ao abrir a porta estreita
- 7 de abr. de 2017
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Rogério deveria ter um pouco mais de 40 anos de idade, mas a bebida alcoólica envelheceu aquele homem cerca de seis anos. Por volta de 1.60 cm de altura, levemente acima do peso, cabelos lisos pretos, a pele morena que já aparentava a vermelhidão que os olhos negros também não escondiam, e os traços do rosto profundos e cansados mostravam que nada estava tão bem quanto o dono daquele Açaí Bar dissera minutos antes.
“Vocês falaram igreja?”, perguntou interrompendo a conversa de quatro amigos. Largou o bloquinho de papel e a caneta que mal conseguia segurar sobre a mesa, arregalou os olhos e esperou ser respondido. O sim daquela turma girou a torneira de palavras presas no interior dele, e, então, falou que frequentava a igreja Renascer aberta há sete dias perto de sua casa e que procurava refúgio nos novos amigos, consolo nos dizeres do pastor, e conforto na esperança de reconstruir a sua família. Uma traição separou o gerente do bar de sua esposa e da filha de 17 anos que não o procurava mais.
Quinze minutos se passaram e a casa com poucos funcionários já estava cheia. Ele permanecia agachado frente aos seus clientes, desabafando detalhes de sua vida traçada pela nova consciência e arrependimento de quem foi. A camisa branca com listras verticais da cor laranja estava suja, fechada a partir do quarto botão, indecisa se permanecia dentro ou fora da calça preta com aparência envelhecida, sustentada por um cinto surrado e os sapatos sociais que não se diferenciavam dos outros trajes. O cabelo tentou acompanhar um corte moderno, mas perdeu-se no decorrer do tempo assim como o seu dono.
Quando se pôs de pé, tentou se recompor ao passar as mãos ocupadas pelo rosto e peito, e arrumando a camisa amassada, anotou os pedidos, caminhou até a mesa ao lado, recolheu pratos e copos, retornou e disse que voltaria logo para retomar a conversa. Desceu as escadas e segundos depois se ouviu o barulho de vidros e porcelanas de encontro ao chão. Todos prenderam a respiração e empertigaram-se para – inutilmente – tentar enxergar o ocorrido. Todos voltaram para suas vidas depois de algumas risadas pelo salão. Ele não voltou. Um funcionário foi encarregado de levar os pedidos dos jovens ouvintes.
No caixa, enquanto os amigos acertavam o valor do que havia consumido, Rogério os encontrou e convidou para conhecerem seu escritório. Subiram novamente ao primeiro andar. Passaram pelas pessoas e suas histórias embasadas em risadas altas e olhos atentos; pela mesa de bilhar e alguns homens que vestiam roupas bem maiores que o número que lhes cabia; pelo rapaz apoiado em uma quina da parede com o copo de cerveja na mão, distribuindo risadas mesmo que seu pensamento estivesse em outro lugar; pela mesa de pebolim vazia e, então, desceram dois degraus e entraram pela porta estreita.
O que se via por dentro, não se comparava com o lado de fora. O ambiente de trabalho daquele homem seguia uma linha despojada de regras, com uma longa escada de madeira que parecia se soltar a cada passo dado, as paredes eram cobertas por velhos grafites e alguns cartazes, e no lugar do teto havia apenas o telhado, sem qualquer separação que dividisse o ambiente. Na parte de baixo, o pequeno salão era composto por duas mesas embutidas de quatro lugares cada, bancos feitos de pallet e cobertos por almofadas coloridas e cadeiras de madeira. A decoração era rústica, com objetos antigos, pranchas de surfe e violões. O local era todo aberto e ficava de esquina, dando acesso a uma comprida avenida e uma rua de paralelepípedos. Homens e mulheres com seus narguilés e cigarros ocupavam a porta e um pouco da calçada, mantendo no ar a sensação da conquista, apesar da atenção voltada para a televisão que transmitia o jogo de futebol daquele sábado.
Passando pela porta branca trancada no segundo andar, se via um espaço bem dividido pelas cores branco, verde e roxo. A decoração minimalista dava o ar de sofisticado. Tudo em seu lugar. Havia um sofá – que Rogério afirmou não usar para passar suas noites ali depois da separação e uma televisão. A área da cozinha era bem organizada e em cada cômodo era possível ver quão artista ele era. No ambiente que também comportava uma mesa espaçosa, não havia uma bagunça a se notar. Dentro de outra porta, uma mesa presa na parede guardava todos os seus (inúmeros) desenhos. Um varal na parede também prendia os papéis rabiscados. “Eu sou tatuador”, lembrou.
O ambiente mudou. Os quatro amigos viram em Rogério o que nem ele enxergava mais. Cada detalhe mostrava para os jovens que ele não era aquele problema que apontava, mas no seu interior havia infinitas possibilidades de ser quem ele quisesse. O fundo do poço que relatava era só uma forma dolorosa de entender isso. O dono do Açaí Bar mostrou para os seus novos amigos o que tentava repetir para si: “nada está perdido”. E mesmo que do lado de fora as coisas parecessem velhas, quebradas e fora de ordem, ao passar pela porta estreita outra realidade tomava conta daquele homem. Chegava a hora de ele ser quem nasceu para ser.
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