Oi, vó!
- 20 de jul. de 2017
- 3 min de leitura
Oi, vó!
Hoje sonhei com a sua cozinha e deu tanta saudade assim que acordei. Acredito que isso tenha acontecido porque ontem à noite a casa estava tomada pelo aroma de uma sopa de legumes quase pronta, e daquela Nega Maluca que sempre dá tempo de colocar para assar enquanto o jantar fica pronto. A casa ficou repleta de cheirinho de vó. Você decorou a minha infância com o aroma das suas receitas – e obrigada por ter passado esse legado para a minha mãe, porque eu me sinto perfeitamente amada em cada detalhe dos temperos usados por ela. Aliás, preciso agradecer você por tanta coisa...
O cuidado de sempre manter a mesa cheia despertou em mim a vontade de cozinhar, e apesar de ser socorrida em muitos momentos por sua filha, eu tenho me saído muito bem. Ah, só por curiosidade, eu deixei de fugir da cozinha porque quero repassar esse sentimento tão profundo para os seus bisnetos. O próximo passo é aprender a fazer o pão!
Depois que você precisou fazer uma viagem sem volta, muita coisa mudou por aqui... O Arthur, por exemplo, não para de crescer e você ficará assustada quando nos encontrarmos novamente, um dia. A três anos atrás eu terminei a faculdade de jornalismo e a festa de formatura foi linda! A família estava reunida em sua maioria e você, destemida, teria viajado mais de doze horas de Concórdia até São Paulo para estar com todos. Eu tenho certeza! Você amava viajar.
Por ser tão corajosa, a sua motivação foi essencial para manter o restaurante da minha mãe aberto há seis anos (e contando...). Os seus conselhos indiretos de como deveríamos viver me fez amar a vida e assumir todos os riscos por isso. Depois que parei de receber as suas cartinhas com R$ 20,00 entre a folha dobrada para um lanche, eu já me apaixonei, criei planos, me decepcionei, frustrei com as expectativas de muitas pessoas, consertei alguns erros, acordei a tempo de entrar para um caminho que não seria bom para o futuro, descobri o sentido de muitas coisas, desconstruí alguns pensamentos e refiz algumas atitudes.
Às vezes eu tenho a impressão de que você não me reconheceria se a minha mãe contasse essas histórias resumidas com profundidade. Eu mudei tanto para melhor... Encontrei um amor maravilhoso! Lembra quando conversávamos sobre ser livre na porta da sua casinha de madeira, você sentada na poltrona depois de acordar da soneca no meio da “Sessão da Tarde” e eu no chão, com as pernas para fora da porta? Pois é, eu também não acreditava ser possível amar com um sentimento de liberdade naquela época, mas percebi que é tudo questão de receber o amor que acreditamos merecer, e você amaria conhecer o rapaz que me fez acreditar nisso!
Agora, além de atriz, dançarina, modelo e jornalista, eu serei uma futura esteticista – descobri que posso ser quem eu quiser ser. Não é maravilhoso? E olha que coincidência, na minha sala de aula existe cerca de dez mulheres com mais de 40 anos de idade recomeçando a vida. Isso me lembra tanto você. Obrigada pelo estímulo em fazer diferente, mesmo que tenha escolhido continuar no mesmo caminho do início de sua jornada...
Eu deveria ter contado essas novidades antes, mas ainda não tenho a sua habilidade de ser a primeira a dar os parabens (mesmo que às 06h00) ou fazer uma ligação interurbana no meio da tarde para contar alguma fofoca recém sabida. Nisso você era ótima! Como pedido de desculpas, eu tirei essa foto das flores que estão no terraço do lugar onde estudo. Eu queria que elas estivessem seguradas em minhas mãos, em frente ao prédio, mas você amava a natureza assim como eu então não pude arrancá-las de sua raiz.
Eu ainda tenho muitas coisas para contar e agradecer, mas farei isso com a minha própria vida. Estou tão feliz. Obrigada por me ensinar tanto! Você sempre estará em meu coração. Eu te amo muito.
Da sua netinha paulista,
Nathalia.
Ouça agora: I Remember - Mahalia

FOTO: Nathalia Moura | 2017
Comentários