A liberdade como substância da vida
- 17 de ago. de 2017
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“Nossa, o rolo grande de papel sufilme já está acabando, preciso comprar outro logo”, disse a senhora loura enquanto enrolava um pedaço de limão no plástico. “Eu detesto aqueles que são pequenos, sabe? Na verdade, eu detesto qualquer coisa que me limite”, continuou como se estivesse em uma conversa particular.
Recém havia sentado à mesa, com um Bauru a minha frente e sem muita fome para fazer dele a primeira refeição do dia, ouvi aquelas palavras enquanto a mulher guardava o fruto na geladeira, batia a porta branca e se encaminhava para a lavanderia. Olhei para o lanche, peguei-o nas mãos e analisei cada ingrediente que continha. Todos em seu lugar, dando o seu devido sabor final.
“Por que não buscamos ser a melhor versão de si?”, pensava em cada mordida que começava no pão, passava pelo tomate salpicado de orégano e seguia pelo presunto enrolado na mozarela. A mulher que continuava incessantemente conversando com quem pudesse lhe ouvir tem 65 anos, e, aos 40, deu a luz ao seu terceiro filho quando não pensava mais em ser mãe. Ela entrou na faculdade de direito após comemorar o aniversário de 3 anos do caçula. Alternando os dias entre casa-escola-trabalho-faculdade-casa da avó, ela se formou e passou a atuar na área até os dias de hoje.
O último pedaço foi colocado dentro da boca, mastigado, e logo após os dedos, um a um, passarem pelos lábios a fim de não desperdiçar qualquer vestígio de sabor, levantei-me e agradeci a conversa. Então, peguei o prato que repousava o lanche e me direcionei para a pia a fim de lava-lo. Em instantes já estava girando a maçaneta da porta, com a mochila nas costas e pronta para mais uma manhã de aula no bairro próximo de onde passei boa parte de minha infância e adolescência.
Despertar diariamente às 06 horas (quando não revejo as prioridades e prorrogo mais 30 minutos o meu horário) para aprender a teoria e prática de uma profissão que dificilmente me imaginei um dia trouxe-me muito mais que conhecimento, mas coragem para fazer de mim alguém melhor do que já sou. Em uma sala de aula com 26 mulheres e quatro semanas de convívio, descobri a profundidade que o querer nos traz.
Carla*, com apenas 32 anos, já venceu a bulimia, doença que lhe causou três anos de tratamento devido à anemia que desenvolveu após o episódio – e que facilmente poderia ter decorrido em uma leucemia. O período traumático foi marcado também pelas quedas bruscas de cabelo. Dezessete anos passados e já saudável, a lembrança que restou em seu corpo foram algumas falhas no couro cabeludo, as unhas como papel e um sistema imunológico – incrivelmente – forte.
Ivone*, nascida na Bahia, desde pequena era acompanhada pela voz do pai que dizia para quem se preocupasse com a sua condição escolar: “Não perca seu tempo, ela é burrinha, não consegue aprender mesmo!”. Pela mentira que se tornou verdade para ela, a menina cursou até a 5ª série de maneira que não se sentia capaz de continuar adiante sem a ajuda dos colegas de sala. Aos 15 anos mudou-se para São Paulo, e como uma sombra a frase ecoava em cada tentativa de aprendizagem e recomeço. Foi só depois do nascimento de seu filho que Ivone*, aos 26 anos, terminou os estudos a fim de ser exemplo para o menino que acabara de parir. Remou contra a maré e calou a voz latente dentro de si.
Zara*, uma curda de cabelos longos e cacheados, com olhar marcante e sorriso largo, chegou ao Brasil aos 14 anos de idade para casar-se com seu primo de primeiro grau, sendo escolhida por ele através de uma foto. Aos 21 anos, ela já era mãe de três crianças e se encontrava diariamente atrás do caixa da loja da família, sem poder tomar conhecimento de nada que acontecia no comércio. A história se repetiu até o momento em que ela decidiu recepcionar os clientes na porta da loja, contra a vontade do marido que não poupava em coloca-la em situações humilhantes. Depois do primeiro, muitos outros passos vieram adiante e para quem sobreviveu às guerras de sua cidade natal, chorar escondida no banheiro e surgir como se nada tivesse acontecido foi especialmente fácil, mesmo que nas duas ocasiões a luta fosse pela sobrevivência. Hoje, Zara* é dona do seu comércio, dona de casa e dona da própria vida.
A francesa Simone de Beauvoir faleceu em Abril de 1986, mas ainda em vida foi tudo o que podia ser e que lhe cabia de mais importante: escritora, filósofa existencialista, memorialista e feminista. Por ser tudo o que acreditava, deixou entre tantos pensamentos, essa frase: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância”. Passaram-se três décadas desde a sua partida, mas no momento em que se fez notada, Simone desbravou muitas mulheres que adormeciam em suas vidas direcionadas pelo padrão estético, social ou fantasiosamente considerado hierárquico entre o homem e a mulher.
Em 1908, ano que a escritora nasceu, foi lançado o livro Anne of Green Gables [Anne de Green Gables], escrito por Lucy Maud Montgomery. A obra originou a série Anne with a ‘E’, lançado neste ano pela Netflix. No sexto episódio intitulado “O remorso é o veneno da vida”, da primeira temporada, a personagem Marella afirma que “As obrigações podem ser uma prisão”, depois de uma conversa com Gilbert, filho de seu grande amor. Em seu discurso, a mulher afirma sua eterna gratidão ao homem que acreditou que ela teria a coragem de viajar o mundo ao lado dele, deixando para trás os cuidados que a única mulher dentre os três irmãos (sendo o mais velho já falecido) deveria exercer ao lado da mãe, pela família.
Por toda a história que segue por sete episódios, vemos uma mulher que se considera avançada pela idade desabrochando como uma flor, por meio da convivência com Anne, uma criança de 13 anos que nasceu para ser livre. A substância que alimentava a pequena garotinha órfã era tão notável que mesmo passado por tantas dificuldades, a sua convicção de uma vida diferente foi a chave de libertação para os irmãos que a adotaram.
A estrada que a vida nos leva sempre será carregada por encontros com pessoas de histórias diferentes. Em algum momento dessa trajetória, desfrutaremos da liberdade de amar quem fomos criadas para ser, sem medo das algemas que a nossa mente nos coloca ou que as opiniões distantes falam ao nosso respeito. Olhar para o Bauru que comi pela manhã só me faz desejar a cada momento um encontro desses, para caminhar em direção ao meu lugar como cada ingrediente, e juntos, entregar à vida o sabor delicioso que ela merece.
* Os nomes verdadeiros foram alterados com o objetivo de preservar a identidade do personagem.

FOTO: NETFLIX | 2017
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